quinto

As lições de “O quinto poder”

Confesso que demorei um tempo para assistir a versão hollywoodiana sobre Julian Assange, fundador do site WikiLeaks, pois esperava, como li em muitos lugares que era uma descaracterização do ativista em prol de uma defesa ufanista dos Estados Unidos. Bom, realmente eu não sei se quem fez essas críticas assistiram ao longa ou se o filme que eu assisti, dirigido pelo irregular Bill Condom e com Benedict Cumberbatch e Daniel Brühl é um filme muito parecido com o criticado. Mas o fato é que me surpreendi de forma bastante positiva.

Em termos cinematográficos, o primeiro minuto já é uma das melhores aberturas que já assisti, mostrando, ao mesmo tempo, a evolução tecnológica dos meios de comunicação, a necessidade que temos de ser informado e como o que chega até nós, depende de quem edita a informação. Acrescentaria que é fundamental e, talvez até mais importante, os nossos filtros éticos, sociais e culturais sobre o que absorvemos de informação.

Um outro ponto abordado de forma bastante inteligente é dar vida – sem parecer chato – ao mundo dos nerds e hackers. As cenas em que aparecem os dois protagonistas dando vida ao Wikileaks é de uma competência extraordinária.

O segundo ponto que me chamou a atenção no filme, e que para mim é quase que obrigatório ser visto por jornalistas profissionais e aspirantes, é a maneira que aborda a grande mídia. Vale fazer um parêntese aqui. O quinto poder é baseado em dois livros. Inside WikiLeaks: My Time with Julian Assange at the World’s Most Dangerous Website, de Daniel Domscheit-Berg, e WikiLeaks: Inside Julian Assange’s War on Secrecy, de Luke Harding. Daniel é o “mocinho” da história e co-fundador do WikiLeaks. Luke Harding é correspondente do The Guardian, que tem uma função importante na história.

Ou seja, apesar de abordar a imprensa de forma benevolente, aponta para a crise no jornalismo de grande circulação, desde aquela época. Em um certo momento Assange diz ao repórter que está fazendo o trabalho dele. De fato, mas sem um trato ético, que seria dado pelo The Guardian. Infelizmente, se compararmos com a nossa grande imprensa, o quadro mostrado pelo diretor sobre as mídias é bem diferente do que de fato existe.

Por outro lado, mostra também a relação “ecológica” entre os grandes veículos. The Guardian não quer uma exclusiva sobre as centenas de milhares informações advindas das forças militares estadunidenses. Ele precisa de apoio do The New York Times e até do Der Spiegel. Para um bom jornalismo, isso é interessante, pois ajuda na credibilidade da denúncia, mas mostra também uma troca de favores como muitas vezes (quase sempre) é visto na trinca Folha – Globo – Veja, em se tratando do Brasil, é claro. E isso para o bem, como romanceado em O quinto poder, ou para o mal, nos esquemas de delações premiadas cujas informações nem sempre bem checadas vem em ritmo de conta-gotas.

Mas o que mais me impressionou mesmo é a forma tergiversada como arranha a imagem dos Estados Unidos enquanto potência mundial ao mostrar uma equipe de contraespionagem cibernética altamente amadora e uma equipe de governo mais preocupada em fofocas do que nas informações que poderiam ser vitais a um governo. O alerta dado por Assange (personagem) contra o governo americano é também sua arma. Ao sujar sua reputação e, talvez, ser incriminado em um crime sexual, ele teria usado do mesmo expediente contra um ex-colega.

E em meio a tudo isso, descobrimos que países como Islândia, Suíça, Alemanha, Estados Unidos, entre outros, tem escândalos de corrupção governamental e empresarial (Wikileaks começou a ganhar notoriedade com divulgação de transações fraudulentas de milionários em bancos suíços) assombrosas. Mas estúpidos insistem em dizer que nos Estados Unidos ou em qualquer país europeu (exceto Grécia) não é assim, só aqui.

Guardadas as possíveis deturpações que possam ter havido em relação ao real Assange, o longa cumpre seu dever de bom entretenimento e apontar muitas feridas. A discussão em torno do que é ético divulgar não fecha e nem tem porquê. A não ser que seu argumento seja: “Só no Brasil…”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *