Como produzir um boato de internet

A bola da vez é a jornalista Maria Júlia Coutinho, da Rede Globo. Logo após um bombardeio de mensagens racistas em seu perfil no Facebook, começaram a surgir boatos de que os ataques seria uma manobra da poderosa Vênus platinada para camuflar os ataques – também nas redes sociais – contra o jornalista Zeca Camargo, que fez um artigo sincero sobre indústria midiática e um sentimento de catarse pela sociedade.
Já no último final de semana, sites de credibilidade duvidosa como Libertar  e Verdade Absoluta  falam em uma cortina de fumaça articulada pela “esquerda marxista” para encobrir a notícia de que a empresa em que o marido da jornalista trabalha é investigada pela Polícia Federal.

Muita gente de boa índole cai em histórias assim, porque parece ser um grande furo e queremos divulgar. Ainda mais se essa gente de boa índole acha que o racismo não existe (sim, uma parte da sociedade brasileira acredita nisso), ou que tudo que acontece no Brasil é culpa da “esquerda marxista que quer destruir o Brasil”. Notícia assim se espalha mais rápido que rastilho de pólvora.

Nem adianta argumentar que:
1) A empresa em que Agostinho Paulo de Moura trabalha (o marido da jornalista) se chama Pepper Comunicação Integrada, com sede em São Paulo, e não a empresa Peppr Interativa, com sede em Brasília e investigada na Operação Acrônimo;

2) Com uma simples busca no Google você descobre que no dia 26/06 grandes veículos, da Folha de São Paulo, passando pelo Estado de São Paulo à revista Época divulgaram as informações sobre o envolvimento da verdadeira agência.

3) Quase todos os dias saem notícias sobre (supostos) envolvimento de empresas, empresários e políticos ligados ao PT e partidos de apoio (e de vez em quando de oposição). Porque tanto trabalho para uma informação sem tanta relevância comparada as demais denúncias que atingem o partido da presidente?

4) Por que escolher como alvo logo a mulher de um suposto envolvido ao invés de outra pessoa famosa?

Os boatos surgem quase sempre de três formas. 1) Uma pessoa de má fé, mas com certa credibilidade (um blogueiro da veja, por exemplo) apresenta um boato e logo as pessoas (muitas vezes de boa índole) se encarregam de multiplicar. 2) Uma pessoa de má fé elabora uma teoria conspiratória usando uma pitada de verdade e doses homéricas de imaginação e logo pessoas (muitas vezes de boa índole) se encarregam de multiplicar ou 3) um site de humor publica uma notícia ridícula e logo pessoas (muitas vezes de boa índole) se encarregam de multiplicar.

Essas pessoas, que podem ser chamadas de inocentes úteis, são aquelas que divulgam informações sem checar porque são anti-isso ou anti-aquilo ou apenas preconceituosos, mesmo. Uma notícia bombasticamente negativa sobre alguém que não gostamos é seriamente candidata a viralizar. Não admira, logo, que alvos preferenciais de boatos sejam políticos de esquerda, como a presidente Dilma, o deputado Jean Wyllis ou o ex-presidente Lula.

No caso da Maju, ela terminou sendo vítima duas vezes: primeiro pelas atitudes racistas e depois alvo de uma campanha de difamação contra seu marido, também negro, envolvendo o governo. Mas esse é apenas um exemplo de como os boatos, às vezes, se estabelecem de forma mais robusta que a informação verídica.

Provavelmente você conhece alguém que acredita ou acreditou que o filho do Lula era o dono da Friboi, o que a Dilma iria congelar a poupança, ou ainda que o deputado Jean Wyllis tem uma proposta de emenda parlamentar para alterar trechos da Bíblia.

Ou acreditou que Alberto Youssef teria sido assassinato no dia eleição, ou que a filha da Dilma era dona de mais de vinte empresas ou ainda que ela implantaria um chip nas pessoas para controlar seus pensamentos. Ou que o governo teria gasto quatro milhões de reais na construção de um Memorial do Funk. (Veja outros boatos aqui ).

No caso da atual situação do governo, com tanta notícia ruim aparecendo a todo instante, acho ainda mais estranho a necessidade de se criar esses factoides de comoção nervosa. Em todo caso, quando a notícia for “muito boa”, antes de encaminhar para terceiros verifique a fonte da notícia. Verifique também se outros veículos de comunicação deram a notícia; verifique se não há declarações esdrúxulas e se não há nenhuma informação de data.

Agora, se mesmo assim, você decidir replicar, acho que não há mais nada que possa ser feito por você.

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