WP_20150901_10_09_30_Pro

Rio a pé

Estando no Rio de Janeiro por uns dias para estudar e trabalhar, precisei ir em busca de uma assistência técnica para o meu notebook seminovo que no primeiro dia na capital carioca não queria funcionar o wi-fi e no segundo dia não queria nem ligar. Vi no google maps que havia duas ou três oficinas a cerca de um quilômetro de onde estou hospedado. Dá para ir a pé, de boas. Olhei no mapa e vamos lá.

Ou quase.

Me perdi tentando me orientar pelo google maps que pedia para eu virar a sudoeste de tal rua. Desisti e tentei o waze, mas esse app do bem é feito para quem está dirigindo. Se você está a pé, não precisa ir até o final de uma avenida para fazer um retorno e isso pede várias consultas ao aplicativo para a gente não se perder.

Como mau turista, para fazer essas consultas ao smartphone, sempre vou a um local público, uma lanchonete comprar uma água ou uma bala, ou me aproximo de viaturas policiais, locais que, imagino, seja um pouco mais difícil a abordagem por furtadores. E não é que a única vez que não fiz isso, já cansado e querendo voltar para o hotel, um homem se aproxima de mim, pega no meu braço e diz, mais ou menos assim: “Guarda esse celular, você tá vacilando, pois tem quatro pivetes vindo te assaltar”. Obedeci na hora e não era que estavam vindo, mesmo? Com o celular no bolso, olhei para as crianças, que se dissiparam na multidão.

Uma parte bastante cruel e infelizmente comum nas grandes cidades foi ver um menino de rua na porta de uma igreja agonizando de forma meio paranóica, provavelmente sob um efeito pós consumo de crack ou droga parecida. Não deveria ter nem oito anos, o corpo todo tremia, olhava para nada, a boca semiaberta. Mesmo sem poder fazer nada, não tive como não me ater aquela visão durante um minuto ou dois.

Apesar do motivo desgostoso da minha ida ao centro, foi bom para conhecer um pedaço do Rio onde muitas histórias de Machado de Assis foram ambientadas (me lembrei especialmente de “A Carteira”), como o Largo da Carioca, rua do Ouvidor, Uruguaiana e arredores. Algumas obras arquitetônicas merecem ser vistas como o Museu Nacional de Belas Artes, o Theatro Municipal e a Imprensa Oficial do Rio de Janeiro.

Um lado, digamos, pitoresco é o de alguns ambulantes do centro do Rio que andam com banners com reprodução de capas de vários programas e jogos piratas anunciando a venda. Em outro momento vi um vendedor tentando tirar uma caixa com os dvds piratas que estava em cima de uma banca. Em outra, um pedido inusitado: Favor não urinar na banca.

Falando em urinar, tudo bem que quase ninguém mais usa orelhões, mas seria bom ter algum aviso que esses aparelhos contêm fotos de nudez explícita, não recomendável a menores de 18 anos (atenção: este trecho tem uma alta dose de ironia), dada a quantidade imensa de flyers colados no interior das cabines. Do que consegui ver a maioria era propaganda de serviços de acompanhantes travestis. Em muitos casos, as fotos delas apresentavam os “dotes físicos” em estado promocional.

Na assistência técnica, o técnico resolveu o problema do notebook em menos de um minuto. Perguntei o que ele tinha feito para eu fazer caso o problema acontecesse de novo, mas ele se negou a me informar, dizendo que era o ganha-pão dele. Expliquei que eu não era do Rio, então dificilmente eu voltaria a sua assistência, mas não queria ter que perder uma manhã novamente, caso o problema voltasse, mas não adiantou. Era o ganha-pão dele.

E ele não me cobrou nada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *