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Para todas elas

Mais do que uma data comercial ou de homenagem, o dia 08 de março é um dia de mobilização em favor da mulher, não só por mais igualdade no trabalho, mas também por mais respeito e dignidade às mulheres. Todas elas.

É bonitinho, mas simplórias, ou melhor, muitas vezes pavorosas, as comemorações a este dia com flores e bombons, ressaltando como são belas e úteis a sociedade. Quando na verdade, nos outros dias do ano as constatações são de que no Brasil, a cada sete minutos há uma denúncia de violência contra mulher (segundo dados do Estadão do dia 07/03/2016). E que na grande maioria dos casos, os agressores são familiares, parceiros ou ex-parceiros. E que o feminicídio vem aumentando e que a grande maioria das vítimas são negras, como aponta o Mapa da Violência 2015 – Homicídio de mulheres no Brasil.

A culpa disso está no machismo (presente em homens e mulheres), o mesmo machismo que dá flores e bombons num dia e no outro dá porrada, estupra, mata, não reconhece o mérito da profissional, ridiculariza seu corpo, suas ações, quer ditar que roupa usar, o que faz, controlar onde vai e com quem vai e não aceita quando leva um fora ou quando elas decidem por um fim ao relacionamento.

O dia então é de reivindicação e mobilização, sim, mas que não se encerra na data. Porque é preciso reconhecer que a mulher é dona de seu corpo, de suas vontades e de suas ações e que não deve ser violentada física, moral ou mentalmente por isso.
A mulher é julgada, sempre. E é para combater isso que também existe o 08 de março. Se usa uma roupa curta está se oferecendo, se usa uma roupa mais recatada é assexuada; se passa na rua quase sempre é assediada, mas se reclamar da baixaria é vista como chata.
Se exige igualdade no trabalho ou divisão de tarefas no lar é taxada de “feminista”, como se fosse algo pejorativo. Se não quer ter filhos é vista como pessoa fria, se optou por fazer aborto é vista como abominável. Se é mãe, é vista como a imagem da pureza, e como tal deve se comportar, não aceitando trabalho (ou nem são oferecidas propostas) que prejudique o seu desempenho de mãe. E se ainda por cima tem atitudes mais liberais, muitas pessoas se julgam no direito de criticar suas escolhas pois não estaria dando um bom exemplo a seus filhos.

Se posa com pouca roupa ou nua é vista como safada, desde que esteja num padrão estético imposto de beleza, pois se não estiver, outros xingamentos vêm à tona. Se usa maquiagem, se não usa maquiagem, se corta o cabelo muito curto, se pinta de azul ou verde, ou roxo, usa tranças ou dreadlocks, se tem tatuagem, piercing, se amamenta em público, se transa no primeiro encontro, se não transa no primeiro encontro, se não nasceu no corpo de mulher, mas se reconhece como tal, se tem ou teve muitos parceiros, se é mulher e gosta de mulher, ou gosta de homens e mulheres, ou não gosta nem de um nem de outro. Se escolheu ter uma profissão incomum às mulheres ou escolheu aquelas que vistas como não nobres, tudo é visto como motivo para uma parcela ainda muito grande da população desmerecê-las.

Não são raros os casos de imbecis que expõe fotos íntimas da ex ou de uma ficante em grupos de WhatsApp ou de babacas que ficam amigos de mulheres no Facebook e outras redes sociais para depois mandar fotos de seus genitais. É essa cultura que faz com que haja 50 mil casos de estupro registrados e 4 mil mulheres assassinadas a cada ano somente no Brasil.

Mas o dia 08 de março também é dia de valorização da mulher e de suas conquistas, ainda que estejamos muito longe de um patamar de igualdade. Pois apesar de todos esses revezes as mulheres têm lutado por e conseguido mais espaços no mercado de trabalho, nas universidades, na política, na sociedade e na sua visibilidade enquanto pessoa independente. E é claro que esse empoderamento se dá tanto pela mulher como pelo homem, mas o caminho ainda é longo para que haja mais respeito e dignidade e que as pessoas entendam o real significado da frase de Simone de Beauvoir: Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.

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