manifestação3

O vírus da fé política

Assisti novamente neste final de semana o documentário A raíz de todo mal?, produzido em 2006 pelo canal britânico Channel 4 com o cientista ateu Richard Dawkins. Interessante como é possível fazer analogias para além da fé religiosa, pois a fé na política, na dieta e academia ou no empreendedorismo, como exemplos, tem os mesmos preceitos.

Na primeira parte do documentário, Dawkins chama a atenção para alguns mecanismos empregados pelas religiões para atrair seguidores e como, na visão dele, esses mecanismos são extremamente frágeis na argumentação em si. O que reforça o convencimento é a tradição e a fé. Acredita-se sem questionamento ou com explicações dos que professam a mesma fé e pronto. Na segunda parte do documentário, Dawkins alerta para o que ele considera ser o vírus da fé: a religião dos pais propagadas para os filhos e netos, sem questionamentos, seja você cristão, judeu ou muçulmano. O cientista darwiniano também fala dos atritos, rixas, guerras e atentados suicidas em que um lado considera sendo a luta do bem contra o mal. O outro lado, claro, considera o oposto.

Dawkins é seco neste ponto. Não se enganem, é a guerra do mal contra o mal. Mal porque mata-se e morre-se por isso. Mal porque usa trechos de suas referências textuais (Bíblia, Torá, Alcorão) e ignora outros. Mal porque usa-se para manter dogmas em relação sexo sem proteção, aborto, adultério, homossexualidade, machismo etc. Mal porque estabelece que sua crença é a verdadeira e todas as outras, não.

Em determinado momento ele diz textualmente: “Para muitos, parte do processo de amadurecer é aniquilar o vírus da fé com uma boa dose de reflexão racional. Mas se um indivíduo não consegue fazê-lo, sua mente ficará para sempre num estado infantil”.

É neste ponto que queria chegar e fazer uma comparação com a rixa tola entre esquerdistas e direitistas em que uma pessoa mais centrada é vista como a besta encarnada por ambos lados. Lula não é salvador, Moro não é herói, Dilma não é guerreira, Bolsonaro não é mito. A defesa ferrenha e cega de um lado contra o outro é tão ruim para a sociedade como o fanatismo religioso. Como se a minha verdade fosse a única possível e todo o resto está errado, quando é mais fácil ser o contrário. Um exemplo recente é um abaixo-assinado em que internautas afirmavam que não queriam Lula ministro do “meu Brasil”. Isso mesmo, o “meu” denotando posse e infantilidade. Ao que o outro lado responde de maneira ainda mais limítrofe à razão. “Mexeu com Lula, mexeu comigo”. É o vírus da fé política se propagando!

Encaminhando à conclusão do documentário, Dawkins sentencia: “Nós somos todos ateus em relação à maioria dos deuses em que a sociedade já acreditou. Alguns de nós só vão um deus adiante”.

Já passou da hora de desmistificar a política e políticos também.

Um comentário sobre “O vírus da fé política

  1. A defesa da fé tem os mesmos fundamentos da defesa de uma ideologia. E como em ambos os casos, o fanatismo pode encontrar um campo fértil. O perigo está em uma coisa chamada MESSIANISMO, uma espécie de mescla entre política e religião. Mesmo Lula e Bolsonaro não sendo líderes religiosos, mas apenas políticos, ambos são ou já foram vistos como “salvadores da pátria”. Claro que não dá para descer Lula até o subsolo e compará-lo com o Bolsonaro, um demagogo em sua mais perfeita definição, mas mesmo assim é perigoso cair na tentação de venerar ambos como pessoas acima do bem e do mal. A história está repleta de exemplos parecidos e resultados desastrosos……

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *