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Depois de uma semana

Passei praticamente uma semana sem acesso à internet, viajando a trabalho em uma aldeia indígena no interior de Rondônia. Minha viagem começou bem no dia da votação no Senado que tiraria a presidente Dilma do comando da nação. Claro que, mesmo a dezenas de quilômetros de uma torre de telefone a gente ficava sabendo algumas coisas como: mudaram a logo do governo (mais do que esperado), a Cultura não tem mais ministério (duvidei seriamente da informação, mas era engano meu), querem acabar com o SUS (a proposta era um pouco mais discreta que essa) e vão extinguir o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA (imaginava que isso ia acontecer, mas torcia para não haver tamanho disparate).

Durante esse tempo pensava que eu precisava me informar melhor para poder avaliar, tendo em vista que até o momento era apenas “ouvi falar”. Mas ao voltar a área urbana vi que realmente estava tudo acontecendo como iam nos contando, mas de forma ainda mais grave.

Mais grave porque passaram-se meses para que o novo (e cada dia mais provável) governo Temer assumisse. Ou seja, havia muito tempo para se preparar para este momento. Mas o que se viu desde escolhas pueris da nova logo, remetendo – levianamente, arrisco dizer, a época da ditadura; até a escolhas e recuos de ministros e secretários. Em alguns casos, nomeação de mulheres para cargos para calar a boca de adversários que afirmavam que há décadas não havia um governo composto só por homens. Espero que as escolhas de Maria Silva Bastos Marques e Flávia Piovesan tenham sido por suas qualidades desejadas ao novo governo e não apenas por serem mulheres.

Mas o que mais impressiona é que o novo governo está apagando muitas das melhores conquistas, algumas iniciadas desde o governo interino de Itamar Franco, como a criação do MDA ou do fortalecimento do Ministério da Cultura, criado após o fim da ditadura, mas revitalizado nas gestões pós-Collor, que havia praticamente o destruído. Isso sem falar em pastas importantes para a valorização de direitos das mulheres e igualdade racial e de orientação sexual, como se fossem doenças implantadas pelo PT.

O corte dessas pastas não tem apelo econômico, pois medidas mais estruturantes do ponto de vista da segurança financeira do Brasil ainda não foram fortemente cogitadas, como o enxugamento da máquina pública, corte de privilégios, cobranças de impostos de uma parcela específica com muita renda que paga pouco ou quase nada, combate à sonegação de impostos e também o incessante combate contra a corrupção. Isso até agora tem se mostrado exatamente o oposto, pois se havia um problema com a nomeação do Lula à Casa Civil, agora esse problema se multiplica por 7.

Mas como eu dizia, quando estava na aldeia era difícil comentar com poucas informações, mas agora, com mais informações, está ainda difícil comentar sobre o futuro. O que se tem de certo é que algumas medidas antes negadas à Dilma, e após troca de uns banqueiros por outros no comando da equipe econômica, agora estão sendo cogitadas seriamente, como aumento de impostos, volta da CPMF e aumento da idade mínima para aposentadoria, medida vetada pela presidente afastada.

A culpa na área econômica, dirão muitos, é culpa do PT. E certamente estão com a razão. Mas as decisões tomadas desde a semana passada contra a cultura, agricultura familiar e minorias, não. Neste caso é apenas uma agenda conservadora e pseudo-populista já que o que se precisa mudar, mesmo, pouca gente em Brasília quer fazer. E essa pouca gente, com certeza, não está em nenhum gabinete do governo interino.

 

Enfim, é cedo pra dizer até onde ainda iremos descer!

 

Em tempo, a foto montagem que ilustra este artigo é do Sensacionalista 

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