Menos idolatria… ou o pop não poupa ninguém

Deve ser da natureza humana ter ídolos e inimigos. Pelo menos seus exemplos estão espalhados nas religiões, nas artes, nas culturas pops. E  suponho, essa necessidade de reverência por um e a aversão por sua antítese, possa ser vista como uma ampliação de um certo complexo de Édipo, considerando as limitações da teoria freudiana.
Veja o caso de um ateu que elege a “Ciência” como seu ídolo e tem na “Religião” sua antítese. É o Deus e o Diabo do religioso. É o cara que torce por um time e elege outro para ironizar. É o adolescente que elege um artista como ídolo incondicional, mas que também ama odiar outro ídolo incondicionalmente. É ainda alguém que elege um Joaquim Barbosa, ou Sérgio Moro, ou Deltan Dallagnol, ou João Dória como ídolo/herói e vê o PT como o Mal a ser eliminado. Ou o contrário, aquele que vê o Lula como símbolo do bem e todos os antes citados como seus algozes.

Seria mais sensato não cair nesses totalitarismos e tirar um pouco (não precisa tirar toda) a paixão e ter mais pés no chão. Assim, ciência, religião, futebol, orientação política etc. tem suas falhas, seus representantes também. Insistindo em dois  últimos exemplos políticos: Não é porque eu não compartilhe de boa parte das propostas tucanas que não vou reconhecer que os governos FHC, alavancados pelo governo interino do Itamar, teve seus méritos ou ainda que não iria endossar a posição do ex-presidente sobre a legalização da maconha. E também não é porque reconheça em Jean Wyllys um dos raros políticos em defesa de minorias que eu endosso todas suas opiniões.
Como não sou religioso, me atento pouco às opiniões de líderes religiosos, embora possa, em um caso aqui, um caso acolá, gostar da opinião de algum deles quando o assunto não é a religião. O exemplo mais forte que tenho é Frei Betto. E sempre tive muito receio de algumas as declarações do papa Francisco, que sempre me pareceram meros discursos para agradar as multidões – como fazem artistas e políticos – do que ser verdadeiramente sua opinião. Ou que sim, era sua opinião, mas a nuance com que foi dita, poderia enganar cristãos (ou não) menos atentos.
A que mais me chamou a atenção foi a repercussão sobre uma fala do papa Francisco que a igreja deveria pedir desculpas aos gays (veja aqui e aqui). A frase solta, me pareceu muito bonita, mas contextualizando com outras partes de sua declaração, como ” (se a pessoa gay) tem boa vontade e que busca Deus, quem somos nós para julgá-la?” ou que eles”não devem ser discriminados, mas respeitados e acompanhados no plano pastoral”. O que de fato parece que o papa diz:  nós  não devemos julgar, mas Deus vai e nosso papel é acompanhá-los religiosamente para que se livrem dos pecados. É uma interpretação minha , ancorado no que ele já havia dito poucas semanas antes, se posicionando contra a união homossexual e recentemente contra uma suposta teoria de gênero.
Não estou dizendo isso para criar conflitos com os católicos. Exemplos em outras religiões e de pessoas sem religião não faltam. É só pra exemplificar como declarações foram floreadas nas mídias e redes sociais como um legítimo líder antenado às questões da modernidade, quando ele apenas – como boa parte de ícones mais populares – dizem aquilo que o público quer para trazê-los mais próximos aos seus dogmas.
Ou como diria Roland Barthes numa frase que sempre repito: ” A liberdade aparente dos conselhos dispensa a liberdade real dos comportamentos: liberaliza-se um pouco a moral para que os dogmas constitutivos da sociedade resistam com mais segurança.”

3 comentários sobre “Menos idolatria… ou o pop não poupa ninguém

  1. Interessante o raciocínio. O homem parece precisar de antíteses e cria simbologias e personagens para protagonizar idéias. Em algumas religiões, admite-se que Deus criou o Diabo (só para ter um adversário interlocutor? pois não há a menor lógica nesse suposto procedimento).

    1. Parece não ter lógica, mesmo, mas eu teria que saber mais sobre essas religiões para poder me embasar. Muito embora Lúcifer tenha sido um arcanjo, também conhecido como Helel, assim como outros arcanjos que terminam com “El” (que é um dos nomes de Deus no judaísmo: Miguel, Gabriel e Rafael). Aliás, no judaísmo não há um personagem que represente o diabo.

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