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Desapegar não é jogar fora

Não sou muito dado a rituais, aliás tenho pavor de alguns, mas desde que a gente começa a usar aquela expressão para dizer que já tem alguma compreensão de si eu costumo organizar minhas coisas no final do ano. Quando criança começava pelas cartas, bilhetes , cadernos, tinha recordações boas, outras nem sim nem não e lá ia a lembrança pro lixo. Hoje em dia é quase certo que só vai para o lixo ou encaminhado para reciclagem contas em papel, cada vez mais raras por sinal,  e produtos que por acaso quebraram.
Este ano, minha revisitação de coisas que serão lembradas, arquivadas ou dispensadas começou mais cedo. Igual na música que por acaso acabo sempre ouvindo, Tendo a lua, dos Paralamas. “A casa fica bem melhor assim. ” Dito e feito.

As fotos já são quase todas digitais. Dos livros, só li um impresso este ano e sabe quantos nesse formato comprei? Pois é? Nenhum. Estou pensando em algum momento fazer um desapega dos livros também, desde que os tenha em PDF ou outros formatos para e-readers.
Mas estou enrolando. Uma das minhas decisões este ano foi a de me desfazer dos meus CDs. Não daqueles que enjoei, daquela banda que ficou chata ou… ou… ou… Não! Desapego total. Não vou ficar com mais nenhum. Nem aqueles garimpados em sebos em Cuiabá, Rio de Janeiro e Brasília, nem metade da minha coleção do R.E.M., importada dos Estados Unidos pela Amazon em época de conexão discada. Nem mesmo aqueles que foram presentes muito especiais. Desculpem-me pessoas que me deram se se importarem com a caixa em acrílico, o encarte e o CD em si. Os presentes cumpriram seu papel.
Mas talvez elas entendam que fiz um gesto grande de desapego por dois motivos principais. Um: não os ouvia mais. Já os tinha quase todos copiados no notebook e compartilhados na nuvem. Onde tem internet eu posso acessar o Groove e tão lá. Estão virtualmente me acompanhando, assim como todos os outros copiados de amigos, baixados legalmente e alguns poucos (muito poucos mesmo) baixado de forma clandestina. Em casa só estavam ocupando espaço no rack que ando com muito interesse em me desapegar.
O segundo motivo, que pode até parecer meio doido, é que não vendo o que não quero mais. Eu doo. Simples assim. E para pessoas que os querem, que farão bom uso deles. Mais ou menos como os personagens de Toy Story 3 em Sunny Side. Doei porque gostei muito deles e significaram muito para mim. Vendê-los seria transformar novamente em mercadoria, o que definitivamente, não são.
A mesma coisa fiz com meus celulares. Meu primeiro smartphone foi, depois, o primeiro smartphone do meu filho. Tudo bem que ele não entendeu a relação de carinho de passar algo usado, mas estimado, e o perdeu em poucas semanas. Já meu Nokia 730 está na caixa original e será entregue para um amigo em Rondônia. E antes que joguem pedra em mim…  Eu e ele gostamos do Windows Phone, ok?
E o meu mais recente desapego, que até achei que demorei para tomar a decisão, por incrível que pareça, foi a de me despedir do meu blog Cinema e Mídia. Foi uma relação de 10 anos, quando nasceu como Cinema e Asneiras, pois a ideia era falar sobre reflexões não indexadas sobre a vida. Mas logo se tornou o nome que tem. Em seus tempos áureos tinha milhares de acessos diários e tenho certo orgulho de um blog pessoal e sem nenhum investimento ter posts como Tabus Sexuais no Cinema  com 11.002 acessos ou Pornografia na TV com 16.117. E o grande vencedor, pasmem, não é sobre esse assunto e sim sobre… Os Vingadores, com 19.050 views.
Nem se compara com o (pen)último post, calculado para sê-lo, Doutor Estranho, com parcas 26 visualizações. Sem carinho, sem cuidado, sem atenção, tudo termina mais cedo do que poderia.
Como podem ver a sessão já tinha acabado, todos já tinham ido embora e ficou só o projecionista esperando para fechar o cinema. #Partiu.
Mas é claro que não é o fim. O blog continuará lá, enquanto o sr. Google permitir, com aquela nostalgia – para mim pelo menos – de filmes clássicos pegos pela metade na TV e continuarei a escrever sobre o tema – esporadicamente – aqui no meu blog pessoal aos interessados e interessantes.
Então é isso, desapego, desapego. Não ter o que não precisa, deixar ir quem não quer ficar, e se apegar ao que mais importa. O ritual já existia, mas, sendo sincero, pode ser culpa do escritor Mario Prata. (Ih, deveria ter começado com isso, não? Não!).
Eu, que assinava a Playboy inclusive pelas suas crônicas, uma vez li uma que falava sobre como os espaços estão cada vez menores, obrigando-nos a uma vida com menos posses; comentou sobre sua biblioteca que estava sendo gradualmente ameaçada por e-books ou algo nesse naipe. Ele concluía que no Japão, cujas casas são ainda menores que no Brasil nem malas costumam-se comprar mais. Alugam-se de boa.
Até do que você precisa para partir ou deixar ir a gente não precisa ter. E essa ideia não me saiu mais da cabeça.

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