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Cansei de ser feliz, eu quero é ter razão! Ou por que decidi deixar de ser endividado

A frase original, que já ouvi em uma palestra do TED e de um recém-amigo do Facebook, é ao contrário e se referia em como eles deixaram de entrar em discussões desnecessárias com suas esposas. Não sei se de fato eles aplicam o que dizem ou se é apenas um trocadilho para dizer que felicidade e razão não andam juntas. Sei lá.
O que sei é que alguns conceitos megalomaníacos como ser feliz ou mudar o mundo sempre me incomodaram. Primeiro porque é impossível ser feliz embora seja possível a gente ter uma vida com inúmeros momentos felizes. E a maioria daqueles que mudaram o mundo não necessariamente o mudaram para melhor. Eu quero, e às vezes consigo, mudar o meu mundo. Se isso.

Mas a felicidade é aquela coisa sugerida em contos de fadas, nos “felizes para sempre”, que todo casal sabe a grande armadilha que é acreditar nisso. E ainda tem quem acredita. Não que eu seja contra o casamento… Quer dizer, sou a favor da união de pessoas que se amam.
Felicidade, para quem já saiu da Idade Média dos contos de fadas está vinculada a consumismo, mesmo que as pessoas não se deem conta. Até esses dias, um projeto de felicidade era trabalhar por décadas para quando estivesse em idade avançada pudesse desfrutar da aposentadoria. Novamente, para quem acreditava nesse sonho, essa meta aqui no Brasil está um tanto mais longe de ser alcançada.
No entanto, há outras opções de se buscar essa droga do século XXI. A felicidade pode estar em ser um workaholic, em querer ser um milionário, em comprar um carro caríssimo porque ralou tanto na vida e agora merece. Ou então comprar um Iphone 7, já pensando no próximo modelo. Ou estar sempre à procura de novas roupas que vão ficar no guarda-roupa (ou closet, porque é mais chique) à espera de serem vendidas para um brechó ou doadas quando deixarem de ser moda e virar brega. Já estou imaginando as pessoas separando suas camisas Dudalina e camisetas Tommy Hilfiger…
Ah, alguns devem estar pensando, nem todos são assim. Tem aqueles que gostam de uma vida mais simples… Devem estar lá juntos com os duendes e objetos voadores não-identificados. Continuemos a procurar.
Tem aqueles que querem uma vida alternativa e pagam bem mais caro por certos alimentos, consomem grifes alternativas que custam quase tanto quanto as da moda e querem contato com a natureza e fazem roteiros psicodélicos e lá se vai uma grana meio absurda para fazer uma viagem a um estado distante, andar por trilhas íngremes e descobrir uma cachoeira escondida num lugar paradisíaco. Ok.
É preciso, neste momento, deixar claro que não sou contra nada disso. Mesmo! Este é o seu projeto de vida? Beleza. É isso que você quer? Justo. É essa sua razão de viver? Vai fundo, camarada. Só torço para que você não faça parte dos 40% da população brasileira que está endividada e sem acesso a crédito.
Pois é. E o mais irônico é que embora nada do que descrevi acima faça muito sentido para mim, eu faço parte desse bolo há muito tempo. Quase que desde que me disseram que sou adulto, apesar de alguns momentos sem isso. Que eram como fases num jogo. Zerou a etapa? Vamos iniciar uma nova fase. É casa, é carro, é o celular novinho… (Era para ser uma paródia dos versos iniciais da música mais famosa do Tom Jobim, mas não deu certo, continuemos.)
Eu precisava deixar que o consumismo me consumisse.
E então eu desisti de ser feliz
Mentira. Porque minha ideia de ser feliz é ter um punhado (ou muitos punhados) de momentos felizes e não um troféu que a gente conquista e deixa lá na estante para mostrar aos amigos quando vão lá em casa.
Já disse o pensador Zeca Baleiro que lugar de ser feliz não é em supermercado. Eu acrescentaria que nem em shopping, nem em black friday, nem… Ok, já pegaram o espírito. Eu, que não me achava um cara consumista, cujas camisas de marcas são aquelas com logos de projetos, patrocinadores, apoiadores e de governos (pois é, às vezes tem). Que só troco de tênis quando começo a sentir o chão com os pés e percebo que uma parte da sola já foi pro saco há tempos, era um consumista. Não adianta torcer o nariz para mim, pois você também é.
Um dia, ou melhor, muito provavelmente uma noite, quando geralmente estou com a cabeça mais ativa decidi olhar aquelas planilhas antigas onde lançava meus pagamentos e no app que venho usando nos últimos anos que até gera automaticamente vários gráficos bonitos e coloridos que nunca dava bola e… pá. Descobri uma constante. Me senti o Sherlock da atual série inglesa vendo um monte de números ao meu lado, nas coisas em casa, nas pessoas, em tudo. Mais da metade do que ganhava nos últimos 7, 8 anos eu gastava pagando empréstimos e faturas dos cartões de crédito. Isso sem contar prestação de casa, condomínio, luz, água, escola e tudo mais que a gente precisa ter para um dia escalar o monte Everest e fincar a bandeira da felicidade.
Tava errado. Eu tinha até uma desculpa pronta para me convencer, ainda que raramente funcionasse. Foram alguns imprevistos que degringolaram tudo. Mentira. Como me ensinou Ricardo Darín  – pessoas, texto está em linguagem coloquial, então não me cobrem próclises, ênclises e mesóclises, por favor! – em um dos seus filmes argentinos: a grande ironia é que os imprevistos podem ser evitados.
Não estou dizendo que no caso de dívidas financeiras isso sirva para todo mundo, talvez nem para a maioria, mas se você se intitula classe-média ou acima disso e é (ou está) endividado, os problemas são vários, da taxa de desemprego aos carinhas legais lá de Brasília, mas uma parcela de culpa também é sua.
Aí, eu que já estava numa onda de me desapegar, decidi que ia me desapegar dessas dívidas. A bola de neve – nem vou falar quantos cartões temos em casa porque ficaria com muita vergonha – tinha que derreter. E olhar meu histórico de devedor anônimo me pôs ao chão e me fez ver que precisava planejar os gastos familiares e zerar a conta.
Passado o susto inicial, comecei a ser um pouco muquirana comigo mesmo. Despachei meus CDs, por exemplo. Não tenho mais coleção, então não tenho porque comprar mais. O Blu-ray estragou e os discos estão bonitos decorando a estante do escritório. O cinema não vai ter mais sessão 3D, XD ou a frescura que for. Filme normal. E sem pipoca. Nem adianta vir com a pegadinha que o preço da pipoca grande é quase igual ao da média, então a gente está economizando se comprar o balde. Eles querem vender a grande mesmo, Essa sempre foi a ideia.
Essa foi a parte fácil porque ninguém mais compra CDs, Blu-Rays e nem vai sempre ao cinema (a não ser uns esquisitos, aí). Mas tive que estender isso para a vida. Para comprar alguma coisa nova, agora só se tiver dinheiro para comprar à vista. Mas, antes, quitar as dívidas atuais. Em três meses já quitei três das grandes, ainda faltam as duas maiores. Mas 2017 será o ano do pagador de promessas; e promessas são dívidas. E depois das dívidas, continuar a viver como endividado, mas juntando algum dinheiro para desviar dos imprevistos e poder fazer bons planos com coisas, lugares e pessoas que realmente interessam.
Ao mesmo tempo eu uso a lógica de que se não está no planejamento do mês não vai ser comprado. Ou se foi comprado algo, outra tem que ser riscada da lista. Simples assim. E isso foi me mostrando – e essa foi minha grande sacada- que é possível e fácil se livrar daquilo que a gente não precisa. Quase tudo que eu preciso para lazer e trabalho cabe na minha mochila. E ela não é das grandes. Como diz Wander Wildner “Minha mochila está sempre à mão e eu tô sempre pronto pra partir”. Essa foi a última citação. Eu juro, pois o texto termina no próximo parágrafo.
Esses dias disse ao meu filho que eu era um cara analógico e estava me tornando um ser digital, pois estou trocando a ideia de ter bens pela de ter acesso a eles. A mulher da minha vida (não gosto da expressão “esposa”) ouviu e disse que tinha medo que qualquer dia eu  iria digitalizá-la juntamente com as crianças e que ficariam “nas nuvens”. Pensei um pouco e vi que era exatamente o contrário disso que eu queria, pois isso já ocorria. Com nossa vida de correr para pagar as contas a gente estava se falando mais pelo WhatsApp do que pessoalmente, mesmo quando não estávamos viajando. Livrar-se das dívidas e de tudo do que não precisamos para poder estar com quem realmente importa. Se isso não for um verdadeiro projeto de ter momentos felizes, não sei o que mais poderia ser.

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