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Se 2016 foi ruim; 2017, então…

Não quero ser dramático ou levianamente pessimista, mas se você não gostou deste ano que está terminando, lamento dizer que 2017 não será muito diferente. Celebridades que você gosta irão morrer, casais perfeitos seguirão vidas independentes, tragédias coletivas irão ocorrer, políticos serão acusados de corrupção, parlamentares aprovarão medidas impopulares. Em escala mundial conflitos armados deixarão populações em situação de extrema vulnerabilidade. E preparem-se, em janeiro mesmo — época de muita chuva — já temos grandes chances de termos casos dramáticos no Brasil.
Puxa vida, Essa minha previsão para o ano novo está muito parecida com o que aconteceu em 2016, não é? Ou 2015, ou 2014, ou 2013…
O fato é, à exceção das pessoas e familiares envolvidos em tragédias coletivas ou particulares (sejam acidentes, doenças ou crimes) este ano, assim como todos os outros para a grande maioria de nós, foi exatamente igual aos demais. É claro que às vezes ficamos com a impressão de sinais cabalísticos de que este ano foi mais grave que em anos anteriores. Vejamos. Logo no Natal morreu George Michael. Em 2015, também no encerrar do ano foi Lemmy Kilmister, do Motörhead. O fato é, as pessoas morrem todos os dias, aos montes, e às vezes são pessoas mais ou menos famosas.
Mas vamos deixar os mortos em paz, a não ser que seja um conversador como Brás Cubas, e nos concentrar nos vivos. Já planejou seu 2017? Carro novo, emprego novo, saldar dívidas, casa nova, agora eu caso, aquela viagem inesquecível ou agora sai aquela temporada na Europa? Não é nada disso, mas no ano que se inicia vai abrir seu próprio negócio, fazer o mestrado, se separar daquela pessoa insuportável ao seu lado, emagrecer e… Para tudo isso dar certo vai pular as ondas, usar aquela cor específica de calcinha ou cueca, não vai comer carne de aves porque ciscam para trás ou qualquer outra simpatia?
Bom, sinto muito em ser novamente o cara chato a dar essa notícia, mas bem-vindo ao deserto do real. Nada disso vai acontecer! Não, por ser 2017, ou 2018 (porque o ano novo já está logo aí). Será, se você decidir fazer, mudar de vida porque precisa, porque quer, porque vai. Não pelo ano que se inicia.
Nosso apego pelo ano novo, por uma regra externa que nos obriga a começar um novo ciclo é tirar nossa capacidade (ou vontade) de mudança e jogar para a mera casualidade. Não é de se admirar que entra ano, sai ano, as promessas de ano novo são basicamente as mesmas. Ou talvez seja preciso ter fé, como já havia alertado o vampiro de A Hora do Espanto. Sei que uma única vez, ainda na adolescência usei cueca amarela no Réveillon. A grana não veio, mas percebi que “cueca” e “amarelo” são duas coisas que não combinam. Nunca.
Mas é certo que nosso apego a simpatias e nossa capacidade intrínseca a continuar as coisas como estão são armadilhas difíceis de se livrar. Pois no ano que vem vai sair aquele aumento no salário e poderei realizar meu sonho, os filhos estarão adultos e o casal vai poder retomar aquela vida há tempos esquecida. E vamos ficando velhos, fingindo não ver o quanto deixamos de fazer o que poderíamos, o que gostaríamos, o que deveríamos, culpando o ano ruim que está terminando e celebrando o novo que está por vir.
No entanto, tudo isso, como já falou diversas vezes o filósofo Clóvis de Barros Filho, nossas alegrias são como pamonhas. Considerando que você é como ele ou eu, que gostamos de pamonhas, temos que convir que a primeira é sempre uma delícia, a segunda mais ou menos, a terceira, é boa, a quarta não quero ver nem pintada de ouro.
E tratamos o ano que se inicia (toda vez) como pamonhas. Quando começa é uma delícia, pois temos muitas expectativas, o tempo vai passando e vamos vendo que já estamos satisfeitos e por fim saturados e começamos a pensar em outra coisa. Um refrigerante, talvez. Ou no ano seguinte.
Como certo, também fazemos isso com tudo mais que por ventura nos frustra em algum momento. Emprego, casa, carro, casamento. Culpamos o antigo, vislumbrando o próximo, que desta vez será diferente, porque é o ideal, é o que precisa.
E o ideal é como a cenoura na vara para o cavalo correr. Inalcançável. Porque uma vez obtida, finda. Enfim, tudo isso para dizer: não culpe 2016 pelos seus fracassos nem mitifique 2017 pelos seus desejos, pois os anos são ciclos que se se repetem independente de nossas ações, vontades ou vidas.

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