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Eu gosto mesmo é de complicar

Olha eu aqui redescobrindo um prazer que marcou minha transição da adolescência para a vida adulta. Mais ou menos entre os 15 e 20 anos eu escrevia contos, poemas, crônicas e divagações sobre a vida. Cheguei até a inscrever um conto num prêmio de artes em 1991, que envolvia diversas categorias de prosa, verso e artes plásticas.
Quando saiu o resultado, ninguém havia ganho na categoria Conto. Semanas depois recebi a análise do meu material, que tinha marcações de correções de português e uma breve análise escrita à mão: “o texto é ágil e envolvente, mas o final é fraco e previsível, desmerecendo tudo que o antecede. ”

No ano seguinte, mostrei o conto à minha professora de literatura, a melhor que já tive. Ela conhecia os jurados e duas ou três aulas depois disse que o autor da frase se desculpou dizendo que se soubesse que eu só tinha 15 anos o prêmio seria meu. Contudo, a regra para inscrição exigia o uso de um pseudônimo e nada mais em nome da lisura do processo. Correto. Mas, eu, na arrogância que é permitida aos adolescentes, fiquei mais chateado ainda e ao invés de me esforçar mais, pois de fato eu havia encerrado o texto às pressas para não perder o prazo da inscrição, passei a guardar as futuras construções só para mim.
Na época, pensava em fazer Literatura, mas também gostava de Filosofia, os pais apelavam para eu fazer Direito. Por sorte não passei e me decidi pelo Jornalismo. O primeiro livro que li quando entrei na faculdade foi Rota 66, de Caco Barcellos, e estava decidido: iria ser repórter policial. Depois fui me interessando por jornalismo literário, mas terminei mesmo trabalhando na área socioambiental.
Mesmo assim escrevi e editei uma revista sobre automóveis, sobre comércio, fiz jornais internos para escolas de inglês, editei um jornal alternativo de duas amigas, trabalhei em instituto de pesquisa, produzi publicações para governos, fui colunista em um jornal e até um anuário da Associação das Primeiras Damas eu fiz. Pois é. Mas tudo isso sem lagar os trabalhos com ONGs. E não posso me esquecer da minha especialização em Antropologia.
Depois, por sorte minha, começaram a aparecer frilas e consultorias voltadas para o terceiro setor. Mas essa caixinha de ser assessor era apertada demais para mim. Criei um blog sobre cinema que andou bem, embora fosse por hobby, até eu ir trabalhar com Marketing. Foi por necessidade, mas me interessei, e muito, sobre o tema, sobretudo em relação às redes sociais.
Mas quando me perguntavam qual era minha profissão, eu respondia “jornalista”. A pergunta a seguir sempre era em qual TV. Frustrados com minha resposta apelavam perguntando para qual jornal. Já ficavam com cara de desalento quando respondia que fazia assessoria de comunicação e muitos fechavam de vez a cara quando dizia que sempre para entidades do terceiro setor.
Agora então está muito mais complicado responder a essa pergunta. Esses dias mesmo, um cara no aeroporto perguntou o que fazia da vida. Eu contei que fazia um monte de coisas, mas o que paga minhas contas é trabalhar com comunicação. De escrever notícias, gerenciar redes sociais, fazer sites e blogs, criar peças gráficas, conteúdos de comunicação, e mais recentemente até representar minha instituição em seminários e eventos. Tenho muito o que melhorar ainda, mas vou indo mesmo assim.
Precisavam ver a cara dele, residente em medicina. Piorou quando falei que além disso estava começando um projeto de comunicação para ONGs e um outro que ainda é cedo para contar aqui. “Cara, ainda dá tempo de fazer medicina”, disse ele. Não, obrigado. Admiro quem faz medicina, mas…
Eu gosto mesmo é de complicar
Quase nunca é fácil, quase sempre a grana é pouca, mas o jeito como levo minha vida profissional é quase sempre gratificante porque é inconstante, é desafiadora e me deu oportunidades de conhecer o Brasil. Eu, que nem viajo mais tanto assim, nem sei dizer quantas viagens eu fiz este ano a trabalho. Mas sei – porque fiz um levantamento em vários momentos de ócio, que já estive em mais de cem cidades e em vinte estados do país. Isso sem contar as inúmeras comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e assentamentos rurais que boa parte da população não conhece por falta de oportunidade ou informação.
Ao invés da estabilidade que muitos almejam, eu prefiro seguir ora tateando no escuro, ora pulando de uma área para outra e sempre viajando, seja de carro, ônibus, avião ou em textos como este aqui.

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