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E não é que vida começa mesmo aos 40?

Ok, sem clichês, começa e recomeça quando a gente quiser. Certo? Posto isso, está sendo interessante perceber como algumas coisas simples que comecei a por em prática tem realmente mudado minha vida. E vou listar rapidamente aqui, porque o tema vai por outros caminhos depois.

Depois de 4 décadas quase sempre sem me preocupar com peso, ao ver 89 kg na balança, decidi dar um fim nisso. Lembrei que já havia feito natação e academia, mas parei porque começava a inventar desculpas para não ir: acho que vai chover, hoje não tô a fim de ir, acho que tá ficando caro pagar… Aí tempos depois tentei fazer caminhada, mas sempre achei (e constatei que para mim, sim) que era coisa de preguiçoso. Até achar uns vídeos no Youtube e pronto. Vários exercícios para fazer em casa. Não tem desculpa. Qualquer horário serve, não custa nada e pode estar chovendo ou fazendo sol. Aliado a cortar alguns alimentos e bebidas e meu peso já baixou para 81 kg em 4 meses.
Outra coisa muito importante foi aprender a dizer não. Parece que é fácil, mas não é. As pessoas que a gente gosta fazem pedidos e às vezes, mesmo não concordando, a gente faz. Isso acontece na família, com amigos ou no trabalho. Mas decidi que, se não concordo, não vai rolar… E que venham as consequências. E elas vieram. Menos dor de cabeça, mais iniciativa e mais prazer nas coisas que faço e isso leva a outra coisa importante nessa minha fase da vida.
Tirar projetos do papel. Sabe aquelas ideias que a gente tem, mas vai empurrando com a barriga, inventando desculpas, complicando tudo… Parei. Ou melhor, comecei. Muita coisa nova acontecendo, novos cursos, novos artigos e já posso me arriscar a dizer que estou escrevendo um livro de crônicas. Não sei como será quando finalizado, se será digital, se alguma editora se interessará ou será algo que só a família lerá e fará comentários bondosos. Não sei, vamos, que vamos porque o tempo tá passando…
E essa do tempo ir passando me lembrou do como eu via meus pais quando eu era criança e eles na casa dos 40. Achava que eram dois velhos. Agora eu discordo, mas é importante registrar que, até onde eu sei, os filhos normalmente veem os pais de 40 anos como velhos. Eu via os meus assim e já ouvi dos meus esse “elogio” também. Mas como minha caçula gosta de perguntar: E daí?
E daí que o envelhecimento é um processo biológico natural e eu estou muito bem com isso, obrigado. É claro que ajuda a expectativa de vida ter melhorado – em média – para a população em geral, mas ser velho, de certa forma, é uma escolha.
É certo que não quero ser o tiozão da Sukita ou o coroa que se acha um garotão. Longe disso. Mas me sinto um estranho se não estou usando camiseta, calça jeans e tênis. Terno? Nem morto! E, sem dúvida alguma, sou muito, mais muito menos careta do que era quando jovem e tinha certezas e regras para tudo.
Aliás, olhando para trás, acho que tem muito pouca coisa do André dos 20 anos. Por exemplo, na música. Só ouvia rock e MPB e torcia o nariz para qualquer outro ritmo. Continuam sendo os que mais ouço, mas me dou bem com qualquer tipo de música. Num dia desses, num bar copo sujo o povo estava ouvindo muito Amado Batista e Reginaldo Rossi. E não é que eu conhecia a maioria das músicas? Há alguns meses também baixei a trilha sonora do filme Esquadrão Suicida, cuja maioria das músicas são rap. Pensei: se fosse mais novo iria curtir… ah, para com isso. Deixa rolar.
Quanto a filmes também. Tinha uma época que olhava com desdém quem dizia que ia ver um blockbuster no cinema. Hoje em dia, acho que sou eu quem arrasta meus filhos para ver. E os desenhos? Curto, mesmo, a maioria feitos para a criançada e sempre que posso assisto com meus filhos alguns do Cartoon Network que acho fantásticos: Mundo de Gumball, Hora de Aventura, Irmão do Jorel, Clarêncio, o Otimista, Apenas um show e Steve Universo. Não tenho vergonha, não. Gosto. E mais, muito melhor do que aqueles que via quando criança. He-man, Thundercats, Transformers, X-Men… que vergonha desses… Hahaha!
E quanto às pessoas e relacionamentos, então? Essa é sempre a parte mais delicada. Não sei muito sobre os jovens de hoje (medo de saber), mas nós, da década de 90, éramos muito preconceituosos, machistas, transfóbicos, homofóbicos, putafóbicos, racistas, idiotas por completo. Ainda bem que cresci, já que tem uma galera aí que não cresce. Hoje tenho uma visão muito mais plural e acho muito bom quando as pessoas assumem suas sexualidades e quando há respeito a diversidade.
Também não sou saudosista. Abraço a tecnologia com ressalvas, mas com gosto, e olho sempre pra frente. Um dia desses, conversando com um dos meus irmãos, ele afirmou que algumas obras eram irretocáveis e não deveriam ser mexidas. Ou se fossem, deveriam ser tratadas com muito respeito.
É fato que eu disse que ele era um velho, não no sentido físico do termo. Deixa as novas gerações trazerem novos olhares a obras clássicas. Isso não muda o original. Em miúdos: nada contra refilmagens por exemplo. O novo Ben-Hur não é ruim porque estou comparando com o original. É ruim porque foi mal desenvolvido, mesmo.
E se parar para pensar o novo sempre vem. Tem um autor inglês muito reverenciado, mas que na sua época era acusado de ser um cara que fazia adaptações de grandes histórias, empobrecia os diálogos para os altos padrões culturais da elite e fazia uma afronta de já iniciar uma história com ação para prender a atenção da plateia. Bom, caso não tenham adivinhado, esse cara era Shakespeare.
Na música, pense no que fizeram Chuck Berry ou os Beatles, por exemplo. Uma heresia para os coroas da época. No cinema, o visionário Chaplin relutou ao cinema falado, como muitos recusaram o colorido, mas o que o jovem George Lucas fez com o início do seu Star Wars mudou a forma do cinemão ser feito desde então.
Como disse um personagem chato em Meia-Noite em Paris, quem fica apegado ao passado tem medo de mudar. Não tenho (mais) a arrogância daquele personagem, pois me identifico mais com o do Owen Wilson, que conversava com escritores, músicos e outros artistas da década de 20, mas sem perder o olhar para o que vem.
Ou admirar, com gosto, os filmes do Woody Allen, que seguem mais ou menos a mesma estética, composição e personagens e rir de filmes besteróis; conhecer ritmos diferentes ao mesmo tempo que não tiro os chorinhos de Paulinho da Viola da cabeça.
Por que de doce, já basta a vida!

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