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7 livros que se destacaram no meu Kindle em 2016

Gosto muito de ler. E fico às vezes frustrado por não ler tudo o que queria. Começar a ler livros em formatos digitais começou a diminuir minha frustração, pois os títulos estão sempre à mão. E revendo minha lista dos livros lidos no ano passado, sete me chamaram a atenção. Iria comentá-los brevemente por ordem de leitura. Mas não é que estavam agrupados por dois grandes temas que gosto muito?
PS. Acordei cedo neste sábado para escrever sobre outra coisa, mas quando vi já tinha mudado de assunto e, por coincidência, hoje (07/01) é o Dia do Leitor.

 

Filosofia
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Este é dos mais recentes dos livros do Bauman (Modernidade Líquida, Amor Líquido, Tempos Líquidos, entre outros) composto por cinco diálogos com o filósofo Leonidas Donskis em que tratam, de certa forma, o caminhar da humanidade. Desde conceitos mais elementares como o que é “bem”, o que é “mal”, o que é “democracia” até os efeitos da pós-modernidade da era digital.
Um trecho que tem muito a ver, inclusive, com nossa situação no Brasil:
“A fraudulência do prometido efeito do ‘fomento indireto’ da opulência no topo da pirâmide agora foi desnudada – para todo mundo observar de modo impotente e lastimoso -, mas as ‘baixas colaterais’ da grande decepção estão aqui para ficar por um longo tempo. Os alicerces da solidariedade social e da responsabilidade comunal foram sabotados, a ideia de justiça social comprometida, a vergonha e a condenação social conectadas à cobiça, à rapacidade e ao consumo ostensivo foram removidas e recicladas em objetos de admiração pública e de culto à celebridade. Esse é o impacto cultural da ‘revolta dos ricos’. Mas a sublevação cultural agora adquiriu alicerces sociais próprios, nos moldes de uma nova formação social: o precariado.”
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O suíço Alain Boton teoriza e traz exemplos concretos de como a notícia é um produto cuja mecânica é quase invisível e, por isso, de difícil questionamento. O filósofo discute o sentimento de urgência que os telejornais criaram e que nos robotizam a assistir como uma necessidade quase fisiológica. As notícias reportadas são vistas pela maioria das pessoas como verdade universal e questionar pode ser uma ofensa.
A forma como política local é noticiada, como tragédias exteriores são expostas e como países “A” ou “B” são sempre bem representados, enquanto os países “X”, “Y” e “Z” são demonizados. E, claro, todas as outras letras do alfabeto são completamente desprezadas. Esse esquema da homogeneização da notícia é mais universal do que supomos e mais nocivo do que gostaríamos de crer.
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Incrivelmente didático, o filósofo português explica o desencanto pela filosofia no ensino médio ao mesmo tempo que problematiza a importância de se estudá-la. Para aprender a pensar, se me atrevo a simplificar o problema. Mas o autor vai além, muito além, mostrando como é possível estudar (e ensinar) filosofia.
Vale para professores, estudantes ou para interessados, como eu, que tive minha iniciação na filosofia meramente autodidata, já que não tive a disciplina nem no ensino fundamental, muito menos no médio. E, pelo contrário, nos anos de escola fui bombardeado de outras menos interessantes para mim como Ensino Religioso e Educação Moral e Cívica. Logo eu, que não sou religioso e aposto na desobediência civil como preceito ético.
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Com uma abordagem bem diferente da apresentada por Murcho, Clóvis de Barros e Júlio Pompeu apresentam a importância da filosofia – e das ciências humanas e sociais, eu acrescentaria – como forma de se entender e entender o mundo. Felicidade, prazer, pessimismo, moral e ética são alguns dos temas abordados.
Segue um trecho que irá fazer se interessar ou rejeitar a proposta da publicação:
“Quando alguém argumenta no campo da ética sobre a melhor maneira de viver e conviver, não se contenta com a parcialidade do seu ponto de vista, busca o convencimento, aspira a universalidade. Porque a sociedade ou a civilização não tolera tanta diversidade de valores. Precisa proteger. Manter a ordem.
No processo de redução dessa complexidade, alguns pontos de vista serão ungidos ao estatuto de regra para todo mundo. É quando algumas impressões dispersas viram códigos. E outras, não. E algumas vidas de qualidade são convertidas em protocolo de qualidade de vida. Conversões conflituosas. Luta pela legitimidade de definir o que é ético e o que não interessa que seja”.
Sexo
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Único livro de ficção desta lista e que demorei a perceber por ser narrado em primeira pessoa e – até então – desconhecer a autora. Bem-humorado e factível, narra as experiências sexuais de uma mulher com baixa autoestima. Para rir e pensar na vida. Virou um espetáculo em forma de monólogo com Otávio Müller.
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A biografia da travesti Amara Moira sobre suas mudanças no corpo e sua iniciação na prostituição. Ela, que foi candidata a vereadora em Campinas e é doutoranda em teoria literária, traz relatos crus, ora fortes, ora bem-humorados, mas sempre sinceros. Um livro revelador.
“Eu te falo então das putas e você me vem com aquelas mesmas desculpas esfarrapadas de sempre e teu discurso impregnadíssimo de salvacionismo barato. Você basicamente não quer ver seu nome ligado a ‘isso’, não quer ver seu nome ligado a essa louca vergonha, não quer, definitivamente não quer, ver seu nome ligado a essas mulheres. Você sabe que elas fazem por que precisam (?), não tem nada contra nem a favor, mas diz que é uma imoralidade defender que possam trabalhar em paz”.
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Eu gosto muito de psicologia e embora tenha gente que ache que falar sobre sexo é uma coisa menor, eu acho muito importante porque as pessoas realmente conhecem muito pouco sobre a essência da natureza humana e animal. É muito tabu por bobagem, muitos receios por desconhecer que suas neuras são iguais a de muitas pessoas por aí e os problemas, muitas vezes, mais simples do que parece. Que tal despir-se um pouco da moral judaico-cristã?
A Regina (desculpa aí a intimidade, mas é que a leio há muitos anos) trata de forma muito sincera o tema e isso é mostrado nos comentários de seus artigos no Uol. E esse agrupamento de assuntos em um livro já antigo, mas ainda atual, lido de uma vez só, me fez pensar o quanto precisamos falar mais sobre sexo, em textos, com amigos, com os parceiros e, principalmente, com a gente mesmo.

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