(Porto Alegre - RS 21/01/2017) Velório do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki. 
Foto: Beto Barata/PR

Coxinhas e Petralhas só precisavam de uma desculpa

Tava tudo muito lindo. Todos em uníssono colocando #foratemer nas redes sociais ou lamentando a vitória do Trump. Como se isso fosse abalar os brios do Primeiramente (valeu, Adnet!) ou do Cabeleireira de cachorro (valeu, Simpsons!) e eles fossem renunciar aos cargos pelos choramingos dos internautas. Petralhas e Coxinhas unidos.
Parecia comercial da Coca-Cola da década de 70! Já podíamos usar camisetas vermelhas e amarelas sem ninguém nos encher o saco.

Mas, eis que os infortúnios da vida estão aí para mostrar que talvez o objetivo da guerra não seja a paz. Mas, antes, o motivo da paz seja a guerra! A queda do avião que matou Teori Zavascki, Ministro do Supremo Tribunal Federal, e outras quatro pessoas veio mostrar que a imbecibilidade extremista estava em estado latente ou destilando suas bobagens em outras áreas. Já dizia Nietzsche, um dos filósofos que volta e meia preenche as lacunas dos meus pensamentos, que políticos dividem as pessoas em duas categorias: instrumentos e inimigos.
E na guerra de uma falsa dicotomia entre direita e esquerda — porque pessoas sensatas de direita, centro e de esquerda não entram nessas searas lamacentas -, teorias conspiratórias sobre o acidente aéreo surgem aos montes. Os técnicos de futebol adormecidos transformaram-se em especialistas em aviação taxando categoricamente que houve sabotagem. Motivos não faltam: Teori estava para homologar uma rica delação. De acordo com a imprensa (especializada???) o modelo do avião era dos mais seguros com vistorias em dia e o piloto, experiente.
Decretado: Derrubou-se o avião. Falta saber quem. Para a torcida vermelha, os coxinhas tinham motivos. Afinal, Lobão havia informado o endereço do filho do ministro para manifestações, o MBL (meses atrás) questionava a índole do ministro. E uma galera do PMDB e PSDB estava no rol dos delatados. Para a torcida a amarela, todos sabem que o objetivo principal da Lava-Jato é prender o Lula. E então o PT (e demais partidos de esquerda) teriam motivos mais do que suficientes para derrubar o avião. Porque não tiveram essa ideia antes, não se sabe.
Eu, que apesar de não ser ingênuo o suficiente para duvidar que políticos e empresários são capazes de tudo para se manter no poder, prefiro — por pura questão de sanidade mental — ficar ao lado das estatísticas. Até provem o contrário. E estou falando da perícia, não dos especialistas em espalhar boatos.
Todos sabemos que avião é o meio mais seguro de se viajar, porém um dos mais fatais quando se acidenta. Segundo estatísticas da Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) foram 136 ocorrências no Brasil em 2014. Em um deles estava o então candidato a presidência Eduardo Campos. Em 2013 foram 159 acidentes.
Quanto mais poder aquisitivo ou cargo importante tem uma pessoa, maior a probabilidade de voar muito, em diversos tipos de aeronaves. Uma coincidência trágica, até mesmo por ser região próxima onde Ulisses Guimarães também morreu. Isso reforça a ideia de acidente e não de macabra conspiração. Mas não dá pra ter certeza de nada, ainda.
Recentemente um time inteiro de futebol morreu num trágico acidente. Creio que nenhum abestado supôs que o atentado foi obra do time adversário. Ou que os Mamonas Assassinas morreram devido a um complô de músicos eruditos e sem senso de humor. Ritchie Valens não morreu por algum nacionalista que odiava cantores latinos ou a banda Lynyrd Skynyrd, da música Sweet Home Alabama, por alguém que preferia outro estado dos EUA.
É mais fácil para mim acreditar que atentados com aviões são feitos por terroristas religiosos e políticos (Al Qaeda, Isis e diversos outros) que reivindicam para si a autoria ou por traficantes narcisistas como Pablo Escobar. Ou ainda por militares em ditaduras como ficou provado, por exemplo, na tentativa frustrada de culpar “os comunistas”, no Rio Centro em 1981. A explosão foi num carro e o local planejado, um edifício, mas a lógica argumentativa permanece.
Sou especialista em filmes de ação e não em criminalística, mas para queima de arquivo existem formas mais discretas de se concretizar. Envenenamento, latrocínio, crimes passionais etc.
Salvo engano à razão, a comoção em torno da morte do ministro deixa em situação delicada à próxima pessoa a seguir com as análises das delações. E ainda que haja atrasos, favorece a aceitação delas e não o contrário. Mas posso estar errado, assim como estava quando ajudei a eleger Dilma, ou como estavam aqueles que bateram panelas.
Vamos deixar a perícia trabalhar, com acompanhamento da Polícia Federal, Ministério Público Federal e Ministério Público do Rio de Janeiro. E não vamos ficar chateados (eu não vou) se no final das contas o resultado for igual a morte da Odete Roitman em Vale Tudo. Apesar de ter meio elenco com motivos para matá-la (como se houvesse motivos suficientes para justificar o assassinato de alguém), o tiro fatal foi um mero acidente. Improvável, diriam alguns, mas acidente.

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