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Esqueça Pinóquio, a culpa é do Gepeto

“Torna-te aquilo que és”, já dizia Nietzsche. “Seja você mesmo” é o mantra de 10 em cada 10 livros de autoajuda. “Ligue o botão do ‘foda-se’ e faça o que você acredita” está espalhado em milhares de textos na internet ou em citações mais polidas em imagens good vibes.
Se é tão gritante, tão urgente, tão primal, talvez, eu diria… Por que é tão difícil?
Exclusivamente pela sua falta de coragem. Ou porque o que você é te incomoda, mas você não sabe o que quer ser. Fato! Mas como e por que isso acontece?
Aí, não sei muito bem o que estava fazendo, e lembrei do conto italiano do Pinóquio. Do desenho da Disney, de 1940, e da versão futurista Pinóquio 3000.

Todos sabem a história. Boneco de madeira que deseja ser humano e uma fada diz que ele tem que ser corajoso e bom para isso acontecer. Por mais antagônico que isso possa ser, ele passa a agir como um adolescente rebelde (e humano, portanto), mas é punido com seu nariz que crescia a cada mentira ou tornando-se, literalmente, um burro ao se entregar aos prazeres mais viscerais ao invés do estudo.
Há uma grande incoerência naquilo que ele quer ser (um menino) e naquilo que ele é (um boneco que age como um). Para passar no teste e se tornar menino ele apenas teria que deixar de agir como um menino e agir como uma pessoa boa e comportada que a sociedade espera que ele seja.
Talvez Pinóquio não entendesse como ser “menino” pudesse ser tão diferente do que ele já era, à exceção de sua aparência de corpo e cara de pau. Para ser “menino” ele não deveria mais mentir para os outros ou sucumbir aos seus prazeres, mas antes, mentir para si mesmo (ser um bom menino que a sociedade espera que ele seja) e com isso ser aprazível para o outro e não para si mesmo.
Essa é a grande incoerência, não do Nietzsche, mas dos autores de autoajuda e da moral do livro. É claro que a obra original do italiano Carlo Collodi, escrita em 1881, e suas animações para o cinema tem seus méritos excelentes, como não confiar em estranho. Mas tem um problema. Foi uma fada – estranha – que lhe mostrou o caminho para alcançar seu suposto objetivo.
A culpa de querer o sonho do outro é culpa do velho artesão de bom coração que moldou o menino a partir de um pedaço mágico de madeira. Em sua benevolência, criou um boneco-menino, algo extraordinário, mas limitado pela devoção ao seu criador e a necessidade de calar seus instintos. O boneco que queria ser mais que um boneco, conflituoso entre ser o que querem que seja e tornar aquilo que é, inverte o papel e ser o que é vira o seu problema. E agradar o criador vira o seu desejo. Tanto é que o final da obra, quando Pinóquio revela-se menino, é quando salva seu “pai” da baleia.
Este dilema existencial se expande no universo Disney com a criação do Grilo Falante, inexistente na obra original. É a consciência, antes dos desejos de Gepeto, que o simbolismo da consciência de Pinóquio, uma vez que sua neófita razão ainda estava em construção.
Enquanto era aquilo que é, foi parar em circo, vira burro. Ou em outras palavras: aventura, emoção, crescimento e punição por ser, simplesmente. De modo desregrado e perigoso, com certeza. Não estou sendo anárquico, apenas observando os seus desejos. Seu desejo oculto não é, então, ser um menino – já era – mas sim ser aceito na sociedade. Tornar-se adulto, na verdade. Uma inversão (minha comparação aqui é simplista para efeitos didáticos) de O Homem Bicentenário, de Isaac Azimov. O androide já era perfeito como máquina para suas serventias laborais, mas ele queria ser um humano falho. Bonzinho e servil ele foi a “vida” toda.
E isso se repete em nossa vida. Muitas vezes confundimos aquilo que queremos ser (o que está na sanha da nossa juventude) para ser aquilo que gostariam que fôssemos. Agradar o Gepeto ou o grilo falante – primeiramente nossos pais que querem, às vezes mais, às vezes menos, moldar-nos às suas vontades, desejos e frustrações – achando que quer se tornar algo que de fato não quer.
Aí você agradou seu patrão, seus pais, seus amigos, seus companheiros, seus filhos, sei lá, e um dia descobre que enganou todos eles, mas antes de tudo, enganou a si mesmo. E como desfazer disso?
Muitos preferem conformar-se à vida, pois já foi e nada mais pode ser feito. Ou então, algumas vezes vão atrás daquilo que de fato sempre quiseram quando percebem que jogou fora uma parte considerável da sua vida. E são tachados de imaturos (se dá errado) ou ousados (se dá certo).
Dane-se, então, o Gepeto. Num sentido metafórico freudiano, é preciso matar seus pais dentro de si e ser, de fato, o que você quer ser. E não o que acha que quer ser para agradar os outros.

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