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Uma eficiente comédia de erros à brasileira

Comédia de erro é um subgênero que sempre anda no limite entre o ridículo e o non-sense. Quando bem feito, é sempre um deleite para quem assiste. Para exemplificar, nada melhor que citar os especialistas nesse tipo de humor, os Irmãos Coen. Quase todas as suas obras, mesmo as mais sérias, bebem dessa fonte, mas vou ficar com as três que considero mais escrachadas Queime Depois de Ler, Arizona Nunca Mais e Fargo.
Quando surgiram as primeiras críticas sobre O Roubo da Taça, coproduzida pela Netflix, que enquadravam o filme neste formato fiquei curioso. Mas o tema “futebol”, nunca foi dos meus fortes. A curiosidade falou mais alto e… que filme eficiente. Sem dúvidas uma das grandes comédias do cinema brasileiro.

Inspirada em fatos reais (as mais ridículas são verídicas, de acordo com o diretor Caíto Ortiz) o roubo da taça no final de 1983 tinha tudo pra ser um grande história. Contudo, quem teve o desprazer de assistir A Taça do Mundo é Nossa, do Casseta & Planeta, sabe que não basta uma boa inspiração. No caso real – não estou entregando nada pois a história é de conhecimento público e revelado no trailer – a taça verdadeira ficar exposta na sede da CBF quase sem nenhuma proteção é pedir para ser roubada. Até mesmo por patetas, como acontece. Seu final trágico, o derretimento é uma vergonha para o até então país do futebol.
Como em todas boas comédias de erros, nós não matamos de rir, mas ficamos o tempo todo com um sorriso no canto da boca, seja pela estupidez da maioria dos personagens, seja pelo provável trágico desfecho que se aproxima. Paulo Tiefenthaler, (do também ótimo O Lobo Atrás da Porta)  que interpreta o idealizador do roubo, Peralta, é a encarnação do malandro carioca tão comum nas chanchadas dos anos 80 do século passado. Sua namorada Dolores, provavelmente fictícia, é a homenagem feminina num filme quase feito só com personagens masculinos. Naturalmente sexy, romântica, apaixonada, e, acima de tudo, a única com a cabeça no lugar. Taís Araújo, então é a escolha perfeita para o papel. Milhem Cortaz continua eficiente, mas tem se repetido nos papéis.
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Taís Araújo rouba a cena
Além da boa história e do elenco, é preciso reconhecer a qualidade técnica da produção. Você realmente se sente transportado à época do final da ditadura, que é retratada de forma de forma sutil por um figurante. Quando o personagem de Cortaz quer torturar um suspeito, outro policial diz: – Nós não estamos seguindo essa linha de investigação. Fantástico. O movimento das câmeras tem ótimos momentos e o uso pouco comum de steadycams em comédias servem para dar o ar claustrofóbico da periferia do Rio e da mente dos personagens.
As tonalidades quase sempre escuras também destoam de quase todas as comédias brasileiras que sempre adotam o estilo de novelas, com cenários sempre bem iluminados, mesmo que tecnicamente seja difícil entender de onde vem tanta luz.
A Netflix vem errando pouco até agora e essa aposta em fazer uma comédia brasileira que não se parece com uma esquete estendida de programa de humor é uma aposta inteligente. E um prazer para quem gosta de bons filmes.
Lançamento: 2016
Direção: Caíto Ortiz
Roteiro: Caíto Ortiz, Lusa Silvestre
Com: Taís Araújo, Paulo Tiefenthaler, Danilo Grangheia, Milhem Cortaz

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